Neste "post" falarei um pouco sobre o
Dōjōkun [道場訓].
Hoje, é possível afirmar que se encontra informações sobre inúmeros assuntos apenas com um “click” no “mouse”...
Acessando a “internet” e colocando a expressão Dōjōkun [道場訓] em qualquer “site” de pesquisa se encontra mais de 60.000 resultados, algo que a primeira vista parece extremamete positivo... o problema começa quando se verifica que a maior parte deles é um grande “copiar e colar” que parece não ter fim... e o que é pior em alguns casos: informações sem pesquisa prévia ou indicação de referências credíveis...
Por isso, abordarei o Dōjōkun [道場訓] procurando sair deste “copiar e colar”... objetivando dar argumentos ou ferramentas concretas para que aqueles que se interessam pelo tema tenham condições de tirar suas próprias conclusões sobre a importância e a função que este termo denota.
Antes de qualquer coisa, faz-se necessário saber o significado dos termos que compõe a expressão Dōjōkun [道場訓]:
-
Dōjō [道場] – sala usada para o treinamento das Artes Marciais;
-
Kun [訓] – instrução, explicação, leitura.
Sendo assim, a expressão pode ser facilmente traduzida como: “Instruções da Sala de Treinamentos das Artes Marciais”.
Buscando outras possibilidades de significado, saindo do literal... mas não perdendo o foco, se chega a três variáveis:
-
Pode-se afirmar que o Dōjōkun [道場訓] é composto por “instruções” que servem como uma espécie de guia de conduta para os praticantes;
-
Consegue-se dizer que o Dōjōkun [道場訓] é um conjunto de orientações que tem por objetivo principal “explicar” o “por que” do treinamento;
-
E por fim, assegura-se que o Dōjōkun [道場訓] é uma “leitura” dos princípios que devem reger o pensamento, o sentimento e as ações de todos os Karateka [空手家].
Ok. Agora que o significado da expressão está claro posso fazer algumas considerações importantes sobre o tema...
Quais são os problemas que são encontrados quando se fala em Dōjōkun [道場訓] no ocidente? Alguém já parou para refletir sobre isso?
Os problemas são muitos... porém, aqui falarei apenas sobre os três que parecem ocorrer com maior frequencia, são eles:
- A falta de conhecimento efetivo sobre a Língua Japonesa (Nihongo [日本語]);
- A obrigação de "decorar" sem entender/interiorizar o Dōjōkun [道場訓];
- A "simplificação" do Dōjōkun [道場訓] para cinco palavras.
Por isso, farei alguns comentários sobre cada uma destas situações buscando esclarecer os problemas que cada uma destas situações acarreta... e apontando, dentro de minhas limitações, alguma possível solução.
1) A falta de conhecimento efetivo sobre a Língua Japonesa (Nihongo [日本語]):
Quando se pesquisa sobre o tema Dōjōkun [道場訓] se vê claramente que os ocidentais tendem a apresentar uma interpretação "muito particular" destas “instruções”... uma mistura de falta de conhecimento da Língua Japonesa (Nihongo [日本語]) com uma “imaginação fértil” resulta em traduções diversas (às vezes inexplicáveis) para as cinco frases que compõe o Dōjōkun [道場訓]... cada qual querendo “vender o seu peixe”... tornar a sua escola mais atrativa... algo do tipo: "Venham para cá, pois aqui nós tenhos os melhores valores".
Todos sabem que o Dōjōkun [道場訓] não é único e que as diversas escolas podem criar suas próprias “instruções” (aliás, isso é muito comum hoje em dia)... o problema começa quando muitas fontes apresentam traduções diferentes para os mesmos conjuntos de Kanji [漢字].
Um exemplo para clarificar o que quero dizer:
Para o grupo de Kanji [漢字] que formam a frase “Makoto no michi o mamoru koto [誠の道を守る事]” encontro as seguintes interpretações:
-
“Fidelidade ao verdadeiro caminho da razão”;
-
“Sinceridade”;
-
“Ser fiel com o verdadeiro caminho da razão”;
-
“Ser fiel”;
-
“Defender o caminho da verdade”.
Como são possíveis tantas variações se o grupo de Kanji [漢字] apresentados são sempre os mesmos? Quem tem razão? Qual a tradução está correta?
Entre as diversas interpretações, mais ou menos felizes, que é possível encontrar “navegando pela Internet”... a que mais freqüentemente aparece é a seguinte:
-
Esforçar-se para formação do caráter;
-
Fidelidade ao verdadeiro caminho da razão;
-
Criar o intuito de esforço;
-
Respeitar acima de tudo;
-
Conter o espírito de agressão.
Não que estes princípios não sejam louváveis... de forma alguma estou dizendo isso... mas não são, de fato, a tradução literal (ou correta) das frases que compõe o Dōjōkun [道場訓].
Aqui alguém pode perguntar: “Mas se estas não são as traduções corretas por que estão amplamente divulgadas?” Simples... muito “copiar e colar”, falta de conhecimento sobre a Língua Japonesa (Nihongo [日本語]), falta de pesquisa, “lei do menor esforço”, etc...
Como resolver isso? Buscando ajuda especializada no que tange a Língua Japonesa (Nihongo [日本語]), estudando mais, pesquisando mais... enfim... se esforçando mais...
Concordo plenamente com Goulart (2009) quando expõe o seguinte pensamento:
"Vergonha não é não saber... vergonha é contentarmo-nos com o pouco que sabemos (...) copiar e imitar faz bem nos primeiros passos de qualquer arte, mas saber realmente é obrigação daqueles mais avançados, daqueles que estão ensinando" (GOULART, Joséverson).
2) A obrigação de "decorar" sem entender/interiorizar o Dōjōkun [道場訓]:
Em muitos Dōjō [道場] é pedido aos alunos mais antigos que "decorem" o Dōjōkun [道場訓] e que, em alguns casos, o repitam no começo de cada aula. Bom... como decorar uma seqüência de palavras japonesas e depois ter de repeti-las é uma tarefa "ingrata" para os ocidentais, muitas vezes acaba-se por ouvir um monte de grunhidos sem sentido que tentam imitar a pronúncia japonesa.
E sendo coerentes... mesmo que o praticante dedique algum tempo de seu estudo/treinamento para decorar e aperfeiçoar a pronuncia das palavras japonesas, passando a falar clara e satisfatoriamente as frases do Dōjōkun [道場訓] isso não significa que ele entenda e/ou pratique estas diretrizes.
Neste sentido, corroboro com o Professor Johannes quando ele afirma que:
“Ninguém pode em verdade afirmar que o Karatedō [空手道] é somente um gesto físico (Jutsu [術]), e também não pode afirmar seu conhecimento, somente de falar o Dōjōkun [道場訓]. Antes, é a prática diária do conjunto de ações e pensamentos coordenados que pode nos levar ao verdadeiro Karatedō [空手道]. E deste partir para a própria vida” (NETO, Johannes).
Portanto, tudo isso (decorar, recitar) somente terá validade se houver por parte do praticante uma vivência concreta dos valores que o Dōjōkun [道場訓] sintetiza ... caso contrário tudo se torna vazio e sem sentido (falando na linguagem popular: “falar é fácil... fazer é difícil...”)... apenas aparências.
3) A "simplificação" do Dōjōkun [道場訓] para cinco palavras:
Neste sentido, Goulart (2009) comenta:
“No ocidente, o Dōjōkun [道場訓] é muitas vezes "simplificado" para cinco palavras: “caráter”, “sinceridade”, “esforço”, “etiqueta” e “autocontrole”... Isto não é lá muito correto... Por quê? Porque em japonês também existem estas palavras... Jinkaku [人格], Sei-i [誠意], Doryoku [努力], Reigi [礼儀] e Jishuku [自粛]... porém o Dōjōkun [道場訓] correto apresenta frases completas com significado sólido, por isso esta simplificação não é "muito bem-vinda" nos círculos tradicionais” (GOULART, Joséverson).
Este me parece o problema mais fácil de solucionar... basta seguir a tradição e apresentar informações/traduções corretas e completas.
Antes de apresentar o Dōjōkun [道場訓] e o seu real significado... gostaria de deixar um último comentário, também de Goulart (2009), sobre a expressão: Hitotsu [一].
Apesar de ser de fato o número “um” a palavra que começa todas as frases do Dōjōkun [道場訓], o termo Hitotsu [一] neste caso não deve… (embora possa) ser traduzido por “um” ou “primeiro”, porque, quando observamos com atenção, vemos que todos os preceitos começam por Hitotsu [一]. No entanto, aqui esta expressão é usada para mostrar que nenhum dos preceitos é superior ao outro e, portanto todos são ou equivalem ao primeiro na ordem de importância. Sendo assim, a melhor tradução neste caso é “importante” e não “um” ou “primeiro” (GOULART, Joséverson).
Vamos ao Dōjōkun [道場訓]:

Traduzindo o quadro, da direita para a esquerda e de cima para baixo, temos:
道場訓 (Dōjōkun)
Instruções da sala de treinamentos
一、人格完成に努むる事 (Hitotsu, Jinkaku kansei ni tsutomuru koto).
Importante, esforçar-se para aperfeiçoar o caráter.
一、誠の道を守る事 (Hitotsu, Makoto no michi o mamoru koto).
Importante, defender o caminho da verdade.
一、努力の精神を養う事 (Hitotsu, doryoku no seishin o yashinau koto).
Importante, alimentar o espírito de esforço.
一、礼儀を重んずる事 (Hitotsu, reigi o omonzuru koto).
Importante, considerar a etiqueta (as boas maneiras) relevante(s).
一、血気の勇を戒むる事 (Hitotsu, kekki no yū o imashimuru koto)
Importante, evitar o ímpeto violento
Denis Andretta
[デニスアンドレッタ]
-------------------------------------------------
Referências:
ANDRETTA, Denis Augusto Cordeiro. Minhas reflexões: A ética dentro das Artes Marciais. Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Fevereiro de 2006.
ANDRETTA, Denis Augusto Cordeiro. A ética dentro das Artes Marciais. Informativo Seidenkai Saishin Kyūsu. Março de 2006, Nº 29, Ano III.
ANDRETTA, Denis Augusto Cordeiro. Dōjōkun [道場訓]. Disponível em: <http://groups.google.com/group/andretta-no-kenkyushitsu>. Acesso em: 18 de Maio de 2009.
GOULART, Joséverson. O que é Dōjōkun e o que se diz no início das aulas de Shōtōkan? Disponível em: <http://groups.google.com/group/andretta-no-kenkyushitsu>. Acesso em: 20 de Fevereiro de 2009.
ITO, Tomeji. Filosofia: A importância e o significado do Dōjōkun. São Paulo. Revista Kiai Nº 16.
JAPANESE ENGLISH DICTIONARY. Dictionary search and Convert Kanji to Hiragana/Rōmaji. Disponível em: <http://nihongo.j-talk.com/parser/search/index.php>. Acesso em: 18 de Maio de 2009.
NETO, Johannes Carl Freiberg. Karate: Há uma grande diferença entre Karate-jutsu e Karate-dō. São Paulo. Revista Kiai.
ROMAJI.ORG. Rōmaji Translator (Translate japanese text (Kanji,Hiragana,Katakana) into Rōmaji or Hiragana). Disponível em: <http://www.romaji.org/>. Acesso em: 18 de Maio de 2009.





Denis Andretta
[デニスアンドレッタ]








Denis Andretta
[デニスアンドレッタ]

Comentários